O projeto implanta-se num território marcado pelo tempo, um lugar de ruína, memória e produção agrícola, onde a paisagem algarvia se revela árida e profundamente enraizada nas práticas vernaculares.
A intervenção parte da necessidade de tocar a ruína, reconhecendo-a como origem do novo gesto. A casa nasce dessa continuidade e organiza-se em dois volumes, implantados com respeito pela topografia. Implantado a norte, o volume dos quartos orienta-se a sul, assumindo um carácter mais íntimo; a uma cota inferior, o volume social abre-se a sul e a poente, absorvendo a luz do entardecer. Entre ambos, um pátio articula os espaços e estabelece uma transição entre interior e exterior.
O volume inferior, parcialmente enterrado e de cobertura plana, evoca as antigas eiras, prolongando o terreno através de uma cobertura ajardinada. O volume superior, de duas águas, assume a simplicidade da arquitetura algarvia, sendo atravessado por um elemento vertical que marca a lareira como centro da casa.
Os materiais são da terra e da luz: tijoleira de Santa Catarina, madeira e tons quentes. A fachada em tijolo cerâmico de tom terroso funciona como filtro, desenhando sombras e regulando a exposição solar.
Nos espaços interiores, os quartos reinterpretam as redes da arte xávega, prática ancestral onde a rede, puxada para terra, desenha curvas tensionadas na paisagem. Essa lógica é traduzida em abobadilhas de terra natural, que introduzem ritmo e profundidade, onde a luz se fragmenta e constrói uma atmosfera silenciosa e sensorial.
Entre abertura e recolhimento, a casa procura equilíbrio. A zona social expande-se na paisagem, enquanto a sala, semi-enterrada, aproxima o olhar da terra.
Uma arquitetura serena, onde habitar é viver em relação contínua com a luz, o tempo e o lugar.
- Projeto
- P028 _ Casa em Salicos
- Localização
- Lagoa, Algarve
- Fase de projecto
- Licenciamento e Projecto de execução . 2026
- Área
- 300 m2
- Arquitetura
- Nova Origem Arquitectos
- Cliente
- Privado
- Modelação 3D
- Nova Origem Arquitectos